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Coluna da Chris

Coluna da Chris: Respostas

 

Respostas. Estas são a melhor parte de qualquer diálogo.
Uma pergunta sozinha não é nada. Uma pergunta respondida começa uma história – ou um texto. No nosso caso, uma nova coluna. Na última coluna, perguntei: quando foi que você deixou de se achar bonita? Como sempre, voltei todos os dias para ler as respostas, e quero aproveitar para agradecer a todas as respostas que vocês me deram em todas as colunas. As respostas, os comentários, as concordâncias e discordâncias, as histórias, elas validam a minha existência aqui no Pop Topic. As suas respostas aquecem o meu coração, emocionam e me fazem ter essa vontade louca de escrever mais e mais. Muito obrigada!

Uma das respostas àquele texto, escrita pela Marcela, conta uma história que, infelizmente, não é tão rara assim. Por coincidência, até fizeram algo bem parecido no Fantástico do último domingo: uma mãe que dizia à filha, em público, que ela era muito gorda e tinha que parar de comer. Não vou falar do quadro, porque eu o achei doloroso. O tom usado pela atriz foi cruel e, repito, justamente por ser algo que a gente sabe que acontece mesmo, machuca. Para mim, o importante ali não era ver se alguém defenderia a menina. Essas coisas acontecem, na maior parte das vezes, quando ninguém pode defender a menina. E atenção, isso não é defesa do direito ao fast food, mas sim a defesa de que as mães escolham a comida dos filhos pelos motivos certos – a saúde – e não pelos errados – a aparência e a “vergonha” que a aparência causa.

Enfim, o que a Marcela disse no fim do comentário dela foi o que me comoveu: “quando eu tiver minha filha, vou me esforçar para ela se sentir linda”. Porque isso, sabe, isso é a evolução da positividade. É quebrar com essa longa tradição de mulheres se maltratando e maltratando outras mulheres, inclusive as próprias filhas, em nome de um padrão de beleza que ninguém perguntou se a gente queria ou não.

E tudo isso me fez lembrar também de uma carta que eu li outro dia, de uma escritora chamada Kasey Edwards. Ela escreve à própria mãe, contando que se lembra que tinha 7 anos quando descobriu que a mamãe, que ela achava tão linda, era “gorda, feia e horrível”. E ela descobriu isso não olhando para a figura da mãe, mas sim porque a própria mãe contou a ela. E que menininha de 7 anos vai duvidar das palavras da própria mãe? A carta é muito bonita e pode ser lida no final do post.

O fato é que a infelicidade em relação ao próprio corpo é altamente contagiosa. Não basta elogiar as outras mulheres, dizer o quanto são lindas, apontar seus aspectos mais favoráveis: a gente tem também que abandonar o triste hábito de se depreciar. Cada vez que uma mulher diz, de forma humilíssima, que ela é feia porque está gorda, que seu cabelo é horrível, que se sente mal por ter a bunda grande, que gastaria um prêmio de loteria inteiro para fazer trocentas cirurgias plásticas e finalmente ficar bonita, esta queixosa senhora derruba cinco mulheres à sua esquerda e mais meia dúzia à sua direita.

É contagioso. Eu não tenho a menor dúvida disso, porque, como eu disse na última coluna, este foi o meu ponto de “parar de me achar bonita”. Estou sendo repetitiva, eu sei, mas vamos lá que o assunto é importante. É uma questão de responsabilidade. Espalhar ondas de insatisfação por aí não é algo que alguém faça por prazer. É involuntário e só existirá uma chance de romper esse ciclo de tristeza no dia em que todo mundo perceber o quanto colabora com a existência dele.

Passar a respeitar o seu corpo e a gostar dele, portanto, é mais do que encontrar a sua própria felicidade e satisfação. É agir também em benefício das outras pessoas, aquelas que ouvem o que você diz e que muitas vezes internalizam as mesmas dores. E passam a sofrer da mesma forma. Por contágio, por comparação, por admiração. E então?

Você pode ler a carta de Kasey Edwards aqui.

Coluna da Chris

Coluna da Chris: Vê se fala direito comigo, viu!

 

Então, semana passada eu falei sobre variar os temas e daí me aconteceu algo que eu acho que até dá para a gente ver como uma espécie de desafio à autoestima. Como mulher, como pessoa, como profissional.

Eu trabalho num escritório que fica num prédio de 12 andares. São pequenos conjuntos, quatro por andar, e nós estamos justamente no último. Fomos os primeiros a chegar aqui,há 20 anos. O plural quer dizer meu chefe, o legítimo dono e senhor, e eu, a secretária.

Então o nosso ar condicionado quebrou há coisa de um mês. É um daqueles aparelhos enormes, que tem duas unidades, uma na escadaria de serviço, outra no forro do conjunto. Quer dizer, não é tarefa fácil trocar uma geringonça dessas, e inevitavelmente haverá algum barulho, alguma sujeira, alguma bagunça.

Foram precisos cinco dias para concluir o serviço, e mais algumas noites. Isso porque em prédio comercial só se pode fazer reformas depois das 19:00h e aos sábados. Durante todo esse trabalho, eu só estava presente no último dia. Fiquei sabendo que foram avisados duas ou três vezes que deveriam parar com o barulho, e que atenderam às solicitações.

Neste último dia, uma segunda-feira, todo mundo já nervoso e irritado (menos eu), os meninos disseram que, para conseguir terminar, precisariam dar 6 ou 7 marteladas e mudar o ângulo de um cano. Eu autorizei, porque considerei que 6 ou 7 marteladas não seriam assim tão incômodas, e já estávamos na fase de “se não terminarem hoje, não vou deixar que voltem amanhã”. Martela aí, nego.

Foram mesmo 6 ou 7 marteladas. E 1 porrada na porta. Abri, e um homem que eu nunca tinha visto antes gritou, com o dedo em riste: VOU MANDAR UMA MULTA!
– Ah, sim?
– SIM!
– Ok. Eu posso pelo menos saber quem é o senhor?
– O SÍNDICO!
Tim Maia, valei-me. Porque ele apenas gritou, o tempo todo em que esteve parado ali na porta. Sobre o regulamento interno, e sobre o barulho, e sobre a multa, a multa, a multa. Tinha ao seu lado uma testemunha que me disse que era preciso haver “governança corporativa”. Ora, eu sou secretária, mas sou formada em Administração de Empresas. Palavras difíceis – e completamente deslocadas – não tem qualquer poder sobre a minha pessoa.

Resumindo a história, eu fiquei indignada, bem como o vizinho de porta, que ouviu tudo e contou para todos os funcionários do prédio. Meu chefe, em apoio, fez uma carta ao condomínio, mencionando a civilidade do uso da campainha, a temeridade de gritar com alguém antes de se apresentar (poderia ser confundido com um bandido) e a mal sucedida aula de erudição que foi falar em governança corporativa numa questão que envolve o vizinho de cima (que não tem qualquer ligação corporativa com o vizinho de baixo) desferindo marteladas em horário proibido.

E então o Síndico escreve uma carta, coloca num envelope com as ordens expressas de que só fosse entregue nas mãos do proprietário do conjunto. E diz, nesta carta, que não houve aula de erudição, porque não teria sido entendida (por mim). Que ele gentilmente pediu que eu parasse com o barulho, que perguntou quem eu era, e se era a proprietária, que argumentou que já era a quarta vez que falava comigo a respeito e que, finalmente, eu tinha dito que pararia o barulho e aguardaria a multa.

Um verdadeiro jogo dos 7 erros. Primeiro, por tentar intimidar uma mulher, subalterna (que até então ele sequer sabia se era dona ou empregada) através da gritaria e do dedo no rosto. Segundo, por explicitamente desconfiar da minha idoneidade ao exigir a entrega da carta em mãos. Terceiro, por considerar, apenas olhando para mim uma única vez, que eu seria incapaz de compreender “aulas de erudição”. Quarto, por ignorar que testemunhos desinteressados desdizem a sua versão da história. Quinto por acreditar que ameaças monetárias assustam as pessoas. Sexto por defender seu direito a esmurrar as portas sem ser anunciado. E sétimo, o mais ingênuo de todos, por imaginar que eu tenha sequer pensado em parar o barulho. Àquela altura, depois da demonstração de macheza do rapaz, o que fiz foi fechar a porta e dizer aos trabalhadores: se tiverem que bater mais, batam, mas batam com vontade! Pena que eles já não tinham mais nada para bater…

É claro que eu, por minha conta, assumi o risco de levar uma multa. E claro que sabia até onde podia ir com o meu chefe, pois foi ele quem pagou a dita multa. Eu concordei com a multa justamente por saber que ela poderia acontecer. O inaceitável não foi receber a multa – e pagá-la até antes do vencimento – mas sim a maneira como o sujeito acreditou que poderia falar comigo.

Se ele foi movido por machismo, por preconceito ou por simples grosseria eu não sei dizer, justamente porque não o conheço. Não dá para a gente deduzir tanto de uma pessoa num único diálogo hostil. Por outro lado, achei interessante a maneira como ele afirmou, na sua cartinha cheia de erros, que eu tinha mentido e que seria incapaz de compreender o que quer que fosse que eles tivessem a dizer, seja sobre administração de empresas, futebol ou o ciclo de vida dos pintassilgos venezuelanos.

Sem radicalismos, mas é neste tipo de situação que eu questiono a nossa sociedade. Porque enquanto houver gente disposta a tratar alguém, seja por causa do gênero, da profissão ou da aparência, dessa maneira indigna, é sinal de que a gente ainda não evoluiu o suficiente. Eu aposto 10 contra 1 que a conversa teria sido completamente diferente se quem tivesse atendido à porta fosse o meu chefe, e não eu. Não haveria gritaria, não haveria arrogância ou ameaças.

Tenho muitas teorias a respeito de homens que gritam, homens que dão porrada em portas e paredes, homens que demonstram esse pouco sutil desprezo por outras pessoas. Mas nem vem ao caso. Importante mesmo é dizer que nada do que ele e outros como ele façam ou digam tem o poder de mudar minha segurança ou a imagem que eu tenho de mim mesma, construída com muito afinco. E ainda por cima sei o que é governança corporativa… tô podendo!